Se pensar em desistir, melhor descansar
Os dias, os meses e os anos de vida sob o abuso imprimem marcas na alma e, algumas vezes, também no corpo de cada uma de nós. Durante muito tempo, e eu ainda estou nessa fase, as lembranças dos momentos de abuso pulam como pipoca na panela: de maneira completamente aleatória, sem controle, mesmo que a panela não esteja quente.
São lembranças que só vêm. E devemos deixar passar, sem culpa, raramente sem dor. Pelo menos foi isso que aprendi. Houve um tempo que brigava com minhas memórias e queria fugir delas. Mais tarde, entendi que isso não seria possível e que eu teria de reviver para poder reelaborar e quem sabe até digerir. Esse tem sido meu caminho de cura, já na certeza de que, como já disse algumas vezes para pessoas próximas, sequelada sou, sequelada serei, mas sempre vou tentar estar bem. Acho que é isso que os sobreviventes dos campos de concentração, por exemplo, fizeram quando foram libertados. Sim, eu me sinto uma sobrevivente. E você também é, principalmente quando tiver conseguido se libertar do seu abusador. Lembrando que a culpa não é sua: você é vítima. Nunca duvide disso, minha querida.
Então hoje, nesse começo de ano, não só as lembranças pulam na memória, mas surge também uma vontadezinha de mandar uma mensagem de feliz ano novo para o ex... coisa de gente ainda dependente, mesmo que medicada pela vida.
Sim, a codependência é uma questão psiquiátrica que precisa de ser cuidada. Outro processo. Eu tenho codependência. E, por isso, ainda tenho forte o sentimento de que não mereço estar feliz, com todas as coisas dando certo na vida. Assim, quando tudo segue bem, dá essa vontade de falar com quem me feriu, para que eu tenha algo do que reclamar.
Eu sei que parece algo sem sentido e lógica, mas as dores decorrentes de um abuso, seja ele único ou multifrequente por anos permanecem e são aleatórias.
Resumindo: dia de me distrair para passar a vontade de falar com o ex, de ficar quietinha elaborando as memórias que surgem, para poder me curar da dor delas e, mais um pouco, me livrar desse sentimento de abstinência, como se das drogas fosse, que ainda sinto.
Vamos juntas! Que este novo ano de 2023 nos faça fortes e felizes!
#violenciadomestica
#violência e catolicismo
#codependencia
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