Santa Rita
Não sei se com você foi assim também, mas comigo aconteceu. Talvez seja um caminho comum, porque, a cada 22 de maio, as homilias dos sacerdotes sempre falavam de problemas no casamento e Santa Rita, que conseguiu a conversão do marido depois de anos de oração e penitência.
Comigo foi assim... era dezembro de 2014. Foi o primeira violência moral que sofri desse ciclo da vida e que me lembro - e é uma tremenda novidade tratar daqueles fatos com esse ponto de vista. Mas foi.
Eu participava de um grupo de casais católicos e havia um pessoa religiosa que nos acompanhava. Eu comecei a ter problemas de relacionamento com os outros casais, porque queria que eles entendessem o meu ponto de vista sobre vários aspectos, estivessem comigo nas excelentes descobertas de doutrina que vinha fazendo... e só ia ladeira abaixo. Hoje, sei bem mas respeitar o tempo de cada um.
Assim, meu então marido tomou a primeira decisão unilateral violenta comigo sem me consultar, sem dar espaço para questionamento: me proibiu de falar com a pessoa religiosa que nos acompanhava, a mim e a ele. Era começo de dezembro. Eu tinha de cumprir essa determinação até o Natal.
Passei na confeitaria, comprei uns 4 docinhos, passei na casa do religioso e avisei do ocorrido. A gente riu e ele me mandou rezar que tudo ia dar certo. Foi então que fui pesquisar sobre Santa Rita, a vida dela, o modelo para as mulheres casadas que sofrem. Me lembro da alegria que senti quando, na noite de Natal, eu liguei para ele, meio escondida, meio na clandestinidade. Talvez tenha sido a primeira coisa clandestina que fiz nesse contexto de proibições, de restrições, de ter arrancado de mim o que era importante.
Meses mais tarde, a partir de abril, meu então marido nos tirou do grupo de casais. Do nada. Por causa de um comentário que eu fiz em um contexto de piada. Só me disse: "estou fora. Como o movimento é de casais, você também está." Chorei por horas seguidas. Quando voltei para casa, ele estava lá, todo fofo a me esperar e me acolher, dizendo que tudo tinha sido melhor para mim. Meus filhos também tinham sido treinados para me consolar. Dos casais que faziam parte do grupo, ninguém veio saber o que aconteceu. Nenhum deles veio conversar comigo para tentar entender o que estava acontecendo. Tem gente mesmo que não se importa com os outros. O cruel foi que, cinco anos depois, esse mesmo grupo participou de uma das ações mais cruéis que sofri.
Hoje, revendo esses acontecimentos, percebo que ele só estava agindo como narcisistas: me isolando de toda a minha rede de apoio para eu ficar mais vulnerável e dependente dele, fraca, sem chão. Assim, era mais fácil continuar ou aumentar a dominação sobre mim. Dar a mim sentimentos que eu não tinha começava a se tornar o básico do dia a dia por todos os anos que vieram...
Rezei tanto, rezei muito para Santa Rita. Todos os anos, lá estava eu na igreja dela, no dia da padroeira, pedindo a conversão do meu marido. Nas minhas buscas por apoio religioso, comparei meu casamento ao dela: Também eu tinha querido ser religiosa, também eu tinha me casado com um homem bruto (de gênio difícil, como dizem), também eu tinha tido 2 filhos... então, era só esperar os 17 anos de casada, me tornar viúva e poder seguir minha vida. E ainda, como Rita, teria uns 3, 4 anos de vida harmônica.... Bem... meu divórcio veio às vésperas dos 17 anos de casada, mas a viuvez não. Então, como mulher divorciada seguirei minha vida.
E entendi que cada um tem o próprio caminho de santidade, de busca de Deus, de conversão. Que a vida dos santos nos inspira, mas não é modelo que se repete. E concluo afirmando que Santa Rita conta uma bonita história de conversão do marido por oração, mas também é a primeira mulher que sofreu violência doméstica séria a estar nos altares das igrejas.
Vamos juntas!
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