Cuide de você, porque, no fim, só você se sabe o que viveu

 Existem algumas questões difíceis de lidar quando se vive em ambiente violento. Uma delas é o "reconhecimento" de quem está de fora de que aquilo tudo realmente existe.

Se as pessoas ainda têm dificuldade de reconhecer a depressão como uma doença, assim como reconhecem o câncer, por exemplo, muito mais dificuldade têm de reconhecer a violência psicológica ou a violência patrimonial, que não deixam nem roxos nem cortes na pele.

Então, só a gente que viveu essas violências muitas vezes imateriais sabe o que nos feria. Mesmo que o abusador sempre negue e nunca admita o que fez ou o valor das leis que existem para nos proteger, mesmo que dele, dos familiares, dos amigos, venha toda sorte de invaliação, de incredulidade, de negação, você, mulher, você entende que o que viveu ou ainda vive é violência. Violência não precisa do reconhecimento da família para existir, mas só do reconhecimento do Estado, do Poder Judiciário, e isso você já tem. 

Só você sabe o medo que tudo isso gerou em você, o quanto sua autoestima foi destruída em pedacinhos, o quanto você teve medo de se deitar para dormir sem saber se acordaria... o quanto você desejou não voltar para casa, porque lá encontraria desrespeito, xingamentos, gritos. Só você sabe o quanto teve medo de a raiva dele ser descontada também nos seus filhos. Só você sabe isso e muito mais.

Então, cuide-se. Liberte-se. Encha-se de coragem e voe em direção à liberdade. Vá com medo mesmo. Se não der para voar, ande. Se não der para andar, rasteje. Mas vá. Você não é obrigada a viver com medo a cada instante da sua existência.


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